
Sinto na ponta da língua
um sabor de outras épocas,
um gosto de coisas
que nem eu sei mais
se o mundo ainda tem.
O chuchu verdinho na salada
e o doce de leite no pão
a mãe na porta da entrada
sorriso maior não se vê não.
Farinha virando farofa na frigideira
E o pai na cozinha pintando
todos os dias eram sexta-feira
e música era os cachorros gritando.
Sinto o acre dos gostos perdidos
sabores bem melhores para meu paladar
a vida cheia de amor pra dar
e o mal e a dor bem longe, esquecidos.
Siri, tainha, mariscos no prato cheio
de comida, de festas, de vontades feitas
a longa fuga de viver insatisfeita
tendo em si a emoção como recheio.
E eu fecho os olhos e então vejo o que sonho
E sonho tudo o que já vi um dia
Saboreio com prazer infindas alegrias
Antes de voltar ao que me faz tristonho.
Deixo o perfume da vida de outrora
Invadir minhas narinas de saudades loucas
Sentindo o gosto ainda da felicidade toda
Felicidade de não ter o que eu tenho agora.
(Ouvindo Damien Rice cantando músicas que me fazem bem...)